Já dissemos aqui inúmeras vezes o quanto nos agrada receber a colaboração dos nossos leitores, afinal, são a razão de existir desse blog.
Mas o relato recebido e que hoje transcrevemos, é mais que uma contribuição para o blog, é uma verdadeira LIÇÃO DE VIDA!
Leiam e vão entender o motivo...
Eu, Dona Bonequinha e Príncipe Encantado – Uma historia de superação.
Tudo começou no ano de 2008, logo após o meu casamento, em que eu e mais duas amigas combinamos de engravidar. Confesso que nunca fui daquelas mulheres que o sonho é ter filhos. Gostava de criar meus cachorros e isto me bastava. Casei-me com 32 anos, com um homem que namorava desde os meus 21 anos. Para sair da minha casa não foi um processo muito fácil. Adoro meus pais, nunca tive problemas de convivência com eles. Mas, relacionamento antigo, meus pais ficando velhos e com a saúde debilitada. Fiquei com medo de perdê-los antes de casar e consequentemente não lhe dar netos. Primeira lição que aprendi, case pelos motivos certos e mais, ainda tenha filhos pelos motivos certos. Bem, uma das amigas logo parou de tomar a cartela do anticoncepcional e ficou gravida. A outra descobriu cistos nos ovários. E eu treinando e nada. Os treinamentos eram muito espaçados e comecei a desconfiar que isto pudesse estar impedindo a gravidez.
Eu e meu esposo começamos a ficar ansiosos. Passou-se quase um ano quando decidi consultar um especialista em reprodução humana. Iniciamos os primeiros exames e para minha surpresa, eu estava com três cistos do tamanho de bolas de ping- pong. Não era ovário policístico, eram os meus óvulos amadurecendo dois ou três em um mês. O médico disse que iriam sumir com o tempo e que não precisava tomar remédio, mas a presença deles e a emissão de hormônios em excesso me fizeram adquirir um tumor no colo do útero. Foi marcado um exame para verificar se as trompas não estavam rompidas. Foi o exame mais constrangedor e doloroso que conheci. Não deu nada, tudo normal. Então comecei o tal do coito programado, ainda sem o Clomid, pois o médico achava que o problema estava nos intervalos dos treinamentos, mas que se eu não engravidasse seria por causa do tumor. Passou-se um mês, viajamos e nada. Fiz novo exame e o tumor já tinha triplicado de tamanho. Então, ele resolveu retirar. Comecei o novo mês fazendo o coito só que com a intenção oposta, para que pudemos retirar o tumor. Próximo do 14º dia fiz a transvaginal. O médico começou pelo esquerdo onde havia três folículos de 12 mm e dois folículos de 9 mm. Quando o médico passou para o lado direito falou “você já ovulou, aqui tem corpo lúteo, corre, vai atrás do seu marido, pra engravidar”. E eu com aquela cara de peroba que tenho disse: “já transei com ele hoje doutor, mas e o esquerdo?”. “Ah! Este vai regredir, não se preocupa a mulher só pode ovular de um ovário por mês”. Expliquei o tumor e ele me disse que não tentasse ter relação por uns dias para não correr o risco de engravidar.
Resumindo, só teoria. No dia 20/04/2009, ocorreu à fecundação daquele ovário direito, um menino lindo, de dois anos hoje, que aqui chamarei de Príncipe Encantado. No dia 27/04/2009, o óvulo esquerdo que teoricamente era para regredir, progrediu, numa linda menininha, de dois anos, que chamarei de Dona Bonequinha. E ai, começou a melhor aventura de minha vida e uma mudança de 720°. E o tumor? Acompanhou a gravidez de 36 semanas, onde saiu naturalmente com a renovação do útero feminino que milagrosamente, acontece todas as vezes que ficamos grávidas.
Foi uma gestação tranquila, só tive pressão alta a partir da 32º semana, logo após o uso do corticoide para o desenvolvimento dos pulmões dos bebes. Fiz cessaria, pois o meu porte físico (só tenho 1,54m de altura e sou magra) não iria aguentar mais que 36 semanas. Os bebes nasceram no dia 18/12/2009, no mesmo dia que o pai. As pessoas falam muito que o sonho de muitas delas é ter gêmeos, ainda mais um casal, me considero abençoada, mas elas não têm ideia do trabalho e das despesas. Para quem nunca tinha pegado num bebe, eu e meu marido tivemos que nos virar. A família quis ajudar e ajudaram. Mas, eu nunca fui uma mulher encostada e queria cuidar e fazer tudo com os meninos. Ai começaram os problemas, minha sogra queria fazer o papel de minha mãe, e eu não aceitei. Ela pôs pressão, meu marido não entendia que eu queria amamentar com tranquilidade, que eu queria dar o banho. Ela quase me enlouqueceu, entrei em depressão pós-parto sem ninguém perceber e só depois de muito tempo é que caiu a minha ficha de que eu estava deprimida. Aos três meses de idade, logo após as vacinas tetra e a pneumo, os meninos contraíram coqueluche. O Príncipe reagiu aos remédios, Bonequinha não. Ficou internada na UTI, com o pulmão todo tomado por uma infecção inexplicável, suspeita de H1N1 e uma leucocitose de 120,000. Foi entubada, teve parada cardiorrespiratória, infecção generalizada e já no final de sua estadia na UTI descobrimos a hidrocefalia. Para hidrocefalia foram levantadas várias suspeitas: algum problema na gravidez, superfetação e a Bonequinha teria diferença de idade com o Príncipe de um mês sendo mais nova de concepção, má nutrição fetal e a própria parada cardiorrespiratória.
O Príncipe? Fez o tratamento em casa e um revezamento entre avós e tias. E a mãe? Ele já nem sabia quem eu era. Isto foi uma das situações mais dolorosas que passei na vida. Mas, se fosse o inverso teria feito a mesma coisa por ele. Perdi neste período sete quilos, pois devido às medicações e o seu desmame, Bonequinha entrou em síndrome de abstinência. A síndrome de abstinência é a coisa mais horrível que eu já vi, ela me arranhava quando estava em crise, e só se acalmava no meu colo, portanto não tinha tempo nem de me alimentar e de ir ao banheiro. Ela não aceitava mais ninguém. Bonequinha foi para casa depois de 45 dias. Foi de home care, com sonda nasogastrica, com um diagnóstico de hidrocefalia, sem necessidade de cirurgia, utilizando drogas como Lorazepan e Metadona, tendo que ser estimulada, sem previsão de andar. Home care é um mal necessário, é uma invasão de gente na sua casa e na sua intimidade, e na sua grande maioria despreparados. A experiência minha e do marido com a UTI fez com que nós ensinássemos as técnicas que iam lá pra casa. Apesar da invasão e do tumulto que trouxe o home care, estava feliz, pois estava perto do Príncipe de novo e Bonequinha em casa longe daquele barulho da UTI. Com a síndrome de abstinência e o desmane da metadona, vieram os vômitos que chegavam a ser seis por dia. Bonequinha passou a ter esvaziamento gástrico lento, levava em média 4 horas para digerir um leite, e ela já não podia perder mais peso era um bebe de cinco meses e não pesava nem 4 quilos. Faze-la mamar era uma luta, ficava tentando de 20 em 20 minutos para ela tomar 150 ml, tudo para ela não ir para o equipo (aparelho usado para alimentar pela sonda).
Outra batalha foi a tosse da coqueluche que dura uns seis meses e Príncipe para cada episódio de tosse, roxeava e Bonequinha vomitava. Até hoje ela prende o espirro de tanto que eu gritava para chamar atenção dela e não vir o vomito. Então, todo dia naquela época, era assim, Príncipe roxeava e perdia o folego e Bonequinha vomitava. Foram inúmeras sessões de fisioterapia, Terapia ocupacional, fonoterapia (devido ao tubo ela desaprendeu a mamar, necessitava aprender, para ser retirada a sonda). Resumindo, Bonequinha ficou sete meses de sonda nasogástrica, e vômitos. Príncipe permaneceu tossindo, com crises fortes de bronquite asmática até retirarmos o leite e usarmos a homeopatia. O trabalho foi árduo e cansativo. Montei um quarto de estimulação precoce orientada pelas profissionais que trabalhavam em casa. Elas, junto com as professoras da educação precoce da escola publica do GDF foram uns anjos na vida de Bonequinha e de Príncipe também. A fisioterapeuta me ensinou a auscultar o peito dele para acompanhar as crises de bronquite asmática. Começamos a alimentação de Bonequinha e outro trabalho, mas depois de muita paciência minha, das técnicas, da babá e da fonoaudióloga começamos a ver progresso e finalmente podemos retirar a sonda. Com o tempo eliminamos o Lorazepan e a metadona e consequentemente o LOSEC e o Motillium.
E o meu marido? Devem estar pensando? Onde estava? Buscou a rota de fuga mais fácil e mais covarde de todas, os braços de outra mulher que não tinha problemas, que não reclamava, que não cheirava a vômito, que não dormia no chão de cansaço físico, que estava sempre a disposição dele. Não lembrou que tinha filhos, só a fulana. Eu fiquei decepcionada. Pensa que ele parou depois que eu descobri, não. Por volta, do mês de outubro de 2010, foi descoberta na sobrinha do marido uma síndrome chamada CROUZON. Doença em que os ossos da cabeça e do rosto não crescem. Foi aquela correria para verificar se uns dos meninos tinham. E adivinhem? Bonequinha é portadora. Devido ao Crouzon, ela adquiriu outra síndrome, chamada Arnold Chiari I, que atrapalha na mastigação, respiração e na parte motora.
Hoje, muitos dos acontecimentos têm respostas. Crianças prematuras só devem sair da UTIn quando atingirem pelo menos 3 kg (os meus saíram com 2 kg), devem ser vacinados com vacina acelular pois elas tendem a ter reação, mas nenhum pediatra vai falar isso. A hidrocefalia veio do Chiari I que veio do Crouzon. Não foi problema nenhum na gestação. Bonequinha andou no tempo certo e não pulou nenhuma fase. Ela fez cirurgia para descompressão do cérebro no dia 20/06/2011 e a outra para reconstrução crânio facial em 02/08/2011. Bonequinha ainda tem um pequeno atraso global neuropsico, pois o motor ela faz tudo que uma criança da idade faz. Como saiu da síndrome de abstinência, ela não vomita mais. Não fala, mas por causa da má mastigação, mas já come pela boca. Não existe mais home care em minha casa. Príncipe tem um desenvolvimento normal. Ainda quando tosse vomita, mas não roxeia mais.
Bonequinha e Príncipe são as luzes que Deus me mandou. Agradeço todos os dias, porque tudo isso que aconteceu me fizeram tornar mãe de verdade e a ver e conhecer pessoas e problemas em que o meu da até vergonha de compartilhar de tão pequeno que é. Em relação ao marido, só largou a fulana depois da segunda cirurgia de Bonequinha porque apareceu outra. Eu prefiro não ver, desencantei, mas não quero ser mãe solteira e não quero meus filhos sem estrutura familiar. Hoje ele me ajuda nas tarefas da casa, mas nas atividades de Bonequinha (clinica, escolinha especial e creche) ele enrola e não faz. Graças a Bonequinha aprendi a ser mais maleável, prestativa, dona de casa de forno e fogão, a ser tolerante e a perdoar. Não me arrependo do que fiz pelos meus filhos. Ver a Bonequinha e o Príncipe correndo de um lado para o outro me deixa feliz e cada coisa que fazem por mais banal que possa parecer me deixa encantada.
Ainda não tenho tempo para mim, mas vou vivendo, dia após dia, sem reclamar. Por quê? Minha força vem da minha fé e de Bonequinha que com tão pouca idade já sofreu tanto e continua se superando e mostrando a que veio para este mundo. Além do mais, vejo tantas mãezinhas com problemas bem piores que não conseguem fazer exames e nem consultas, pois o nosso sistema de saúde é uma porcaria. Meus filhos tem uma boa equipe médica entre geneticistas, neuropediatra, neurocirurgião pediátrico, oftalmologista, otorrino, pediatra homeopático e pediatra alopático e os profissionais da escolinha especial e da clinica. Tive que aprender que preciso dos outros, infelizmente muitos que trabalharam em minha casa abusaram da situação em que estamos vivendo, com exceção da babá atual que é outro anjo na vida de meus filhos. A única coisa que me deixa em pânico é eles não comerem, e eles são ruinzinhos para se alimentar. E que mãe não fica preocupada? Se alguém souber uma receita, simpatia ou dica me avisem.
Obrigada pela oportunidade e a melhor lição que eu aprendi: Deus não dá um fardo maior do que nós não possamos carregar. Cabe a cada um de nós piorarmos ou não o fardo.